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MEU BRASIL INZONEIRO

Pode-se cantar a história do Brasil por diversas entradas e bandeiras. Escolher o Chuí ao invés do Oiapoque, devido à influência da Revolução Farroupilha na abolição da escravatura e na proclamação da República. Ao confrontar o Império dez anos a fio, sob a influência de Garibaldi, o Che Guevara da Itália, deixando filhotes nos pampas que reverteram a caudilhos, confundindo a imagem de gaúcho como um chucro. Quando se trata de dizer a verdade na cara, tchê!
Tal contexto ampliou a cabeça do Rio Grande, quando o mesmo poderia ter acontecido com os pernambucanos, se os holandeses tivessem miscigenado o seu colonialismo com o português, ao assimilar a cultura de nossos indígenas à Companhia das Índias Ocidentais e Orientais. Certamente Van Gogh não teria cortado a orelha e morrido de fome, acabando seus dias em Porto das Galinhas, como Gaugin no Taiti.
A nossa sorte foi os paulistas com as célebres Entradas e Bandeiras, a explorar o Brasil e assumir a posição de locomotiva. Visto que os cariocas acostumaram-se a mamar nas tetas do Império e inspiraram Ary Barroso no mulato inzoneiro do meu Brasil brasileiro. O uso do cachimbo fez a boca torta dos mineiros ao explorarem o ouro: esconderam-no debaixo do colchão e sentaram em cima, daqui não saio, daqui ninguém me tira.
Parir a identidade baiana não foi fácil, para onde levar a miscigenação e o sincretismo religioso? Foram obrigados a desenvolver o discurso, em verso e prosa, para tentar explicar suas idiossincrasias. A emenda foi pior que o soneto, pois a mãe menininha gerou filhos de Gandhi ao som de timbaladas em pleno afoxé, desarranjando-se no acarajé. A senha para Gilberto Gil passar a perna em Caetano Veloso e Jorge Amado e virar o guru da cultura – o tropicalismo venceu, por fim.
Paraná e Santa Catarina, paraíso de imigrantes, só se incorporaram à federação quando Getúlio Vargas os obrigou a falar português. O estado do Pará, tão próximo da Europa, se afundou com o ciclo da borracha e se isolou, a exemplo dos índios ianomâmis. O Nordeste foi presa fácil dos coronéis que se aproveitaram da divisão territorial do Brasil em capitanias hereditárias e partiram para a política de ocupação, extraindo da seca o lucro com que manietou o sertanejo na lenda de ser, antes de tudo, um forte.
Em suma, mataram Getúlio Vargas para gerar um Brasil menos brasileiro e incorporar o avanço de culturas evoluídas à nossa auto-estima, fazendo os militares crerem, posteriormente, que nos transformaríamos numa potência de usinas atômicas e itaipus. Finda a experiência, nos devolveram o país imerso numa guerra civil disfarçada, em que assaltantes atacam a indefesa população trabalhadora e fustigam os ricos encastelados. A discutir o tamanho da pobreza, se a fome passa pela escassez ou desnutrição, se é zero a fome ou o desemprego, se o analfabetismo é primário ou fundamental, se nos desarmamos ou endurecemos com a marginália ao som punk do baticumbum que doura a hipocrisia ao sol do verão.
Não se pode mais afirmar levianamente que o brasileiro não sabe votar, já tentamos de tudo. Elegemos um mineiro para administrar a herança maldita da ditadura, mas ele não resistiu e carimbou a capacidade política de sobreviver a qualquer regime ou governo, o mais discretamente possível, aglutinando um poder reconhecido como imortal e acadêmico. Impichamos caçador de marajás, corrigimos a demagogia com a plumagem tecnocrática e vendemos o país, além de experimentarmos um presidente-operário que governa para o eleitorado que não votou nele com seu um por cento de auto-satisfação.
A inevitável globalização porá o Brasil no seu devido lugar. Ganha um doce quem adivinhar no que resultará a esperança, posto que fé temos demais por sermos um país religioso e espiritualizado. Basta volver a crença e pôr no curso do rio o sertão que irá virar mar. Quando tudo parece perdido, basta levantar a cabeça e recuperar a auto-estima, o horizonte quer beijar as nossas mãos, anseia por ser conquistado, foi criado com essa intenção.

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Antonio Carlos Gaio
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