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O ATO DE DOAR-SE

Chico Xavier era tão humilde que firmou o desejo de desencarnar no dia em que o Brasil estivesse feliz. Missão impossível, não para Deus que é brasileiro. Em 30 de junho de 2002 a nação comemorava o penta, num domingo festivo que desviou as atenções sobre o grande missionário do amor no retorno à pátria espiritual. Um verdadeiro apóstolo ao debulhar o Evangelho, soube, como poucos, amar ao próximo acima de todas as coisas. A largos passos, a personalidade do século do estado de Minas Gerais removeu o preconceito de associar o espiritismo a contatos de ordem sobrenatural e de mexer com esqueletos guardados em armário, a pretexto de que em baú só se guarda meras velhas recordações, para que reativar emoções, mágoas e frustrações afetivas relegadas ao passado, quando não há porque ficar triste, a saudade é natural, significa que estamos depurando e aprimorando os sentimentos.
Sua obra maior como mentor espiritual foi de revigorar o cristianismo à luz da doutrina espírita. Contudo, seremos eternamente gratos à sua caridade sem limites e sem fronteiras que o levou a ocupar um espaço de destaque no coração, não só de espíritas como também daqueles com outra formação religiosa, despreocupados com a hegemonia de verdades absolutas sobre o que é melhor para a sua vida. Ele conseguiu a unanimidade entre todas as crenças, apesar das divergências marcantes no exercício da fé, ao levar alívio aos sofredores do corpo e do espírito numa missão que explicita a real extensão do que é evangelizar.
Alcançou a meta a que o homem se destina de vencer os instintos aperfeiçoando os sentimentos, sufocando os germens latentes da matéria, fazendo-nos crer que o amor é de essência divina, porque amou a todos os irmãos, indistintamente, destruindo o egoísmo sob qualquer forma que se apresente, seja pessoal, de família, de casta, de nacionalidades. Não acreditou na secura e no endurecimento do coração humano, pois que ele cede, mesmo a contragosto, ao verdadeiro amor.
Conforme rezou em seu poema “Oração”, Chico Xavier sabia que a vida é dolorosa, o futuro que nos espera não é assim tão cor-de-rosa e os amigos acabam indo embora, contudo… creia em Deus e nunca perca a vontade de viver e de ter grandes amigos, de querer ajudar, embora muitos sejam incapazes de ver, reconhecer e retribuir. Mas não perca o equilíbrio, a vontade de amar, mesmo sabendo que você não pode sentir o mesmo que sinto por ti. Não perca a luz e o brilho no olhar nem a garra diante da derrota e da perda, pois as tentações são inúmeras e deliciosas de molde a perder a razão. Mas, se não fores justo, lágrimas brotarão de seus olhos embotando a beleza e a alegria de ver, perderá o amor pela família, que está sempre a exigir esforços hercúleos para manter sua harmonia. A dificuldade reside em doar este enorme amor que existe em nossos corações, pois tememos ser subestimados e rejeitados quando a alma se torna pequena. Mas se a vida é construída nos sonhos e concretizada no amor, bastam sementes de alegria e esperança para mudar e transformar qualquer coisa.
Não é fantasioso e herético cruzar os destinos de Chico Xavier com o de Hélio Delgado, filósofo de botequim e figura polêmica na boemia carioca, recentemente desaparecido. O básico de sua formação proveio do Instituto Militar de Engenharia (IME), tradicional reduto especializado em gerar elites de homens de QI elevado, apoiado na lógica da razão, pois só assim se produz com eficiência e se chega ao sucesso. Com o tempo, aprimorou suas teorias sobre cálculo e aplicou-as sobre seus ganhos e posses, prevendo que poderia viver sem se consumir no trabalho até os 75 anos com o capital que possuía. Se transformou num defensor ardente do ócio, se orgulhando em proclamar ter precisado trabalhar apenas uma vez em sua vida. Sua presença nos bares da cidade passou a ser tão freqüente que os amigos sabiam qual o roteiro dos “escritórios” de onde despachava. Carimbou todos os botequins nobres da Cidade Maravilhosa, mas seu bar de coração sempre foi o Jobi, eleito o preferido para saideiras.
Apesar de ter cultivado fé em revoluções para resgatar a igualdade entre os homens e no alternativo à vida careta estabelecida pelo sistema, alimentou a maníaca idéia de que perseguida era sua ideologia, capaz de provocar cismas e diásporas com quem se indispunha. Pretendeu fugir à contingência e à precariedade da vida ao tomar nas mãos sua própria liberdade, embebendo-se da ilusão de ótica provocada pelo prazer com que ela nos brinda ao sorvê-la em goladas generosas, relegando os riscos e responsabilidades que isso possa acarretar ao sono pesado dos notívagos.
Orgulhoso de seu brilhantismo intelectual a brincar de formular novos modelos de sociedade e de felicidade, nem se apercebeu de que não se controla ou se manipula a lógica da vida, pois a morte nos relega ao medo de ser abandonado à nossa própria sorte, daí a crescente recorrência à eutanásia para abreviar o último suspiro.
Ao se inteirar de que iria morrer de câncer no fígado, aos 55 anos, distribuiu seus haveres entre amigos, garçons e instituições de caridades cujo número 80 expressa o tamanho de sua verdadeira família. Legou aos aquinhoados um sentimento de eterno agradecimento diante de um gesto de tanta generosidade. Jamais esquecerão o gesto de paz e reconciliação, restará na memória dessa família para sempre, como uma lenda que valorizou sua vida na passagem para a morte. Hélio Delgado se dizia ateu e anarquista.

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