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RELATOS EXTRAÍDOS DO CONFINAMENTO (II)

Para as crianças, o coronavírus promoveu um estreitamento maior no convívio com os pais que respeitam o isolamento social. Um ganho e amor que não desfrutariam se os pais estivessem saindo para trabalhar. Excetuados, é claro, aqueles cujo ganha-pão é obtido nas ruas, que implicam em contágio. Os idosos ficaram com o quinhão pior do vírus, não podendo se aproximar de seus netos e bisnetos assintomáticos, e sujeitos ao isolamento mais rigoroso devido a doenças disputarem a primazia de levá-los daqui o quanto antes, face ao adiantado da hora de partir. Como se não bastasse aos em torno dos 60 anos admitirem que fazem parte do grupo de risco por já serem velhos, pouco adiantando sofismar que não são decrépitos. Os solitários se encontram entregues à sua própria sorte, lutando contra a paranoia de descobrir quando será chegada a sua hora, irritados com a irresponsabilidade do presidente em desafiar a ordem de isolamento social, partida de seu próprio governo e mandada cumprir pelos militares que tutelam seu mandato. Os solitários se debatem ao correr da rotina entre faxina, cozinhar, lavar pratos e roupas, passar a ferro, assistir filmes que já viu e outros que, de entretenimento, só geram tédio. Então, o que fazer no restante do dia? Pensar na vida? Mas se isso já era o que mais se fazia antes do coronavírus! Fazer amor, e como? Como se isso já não se tornara um problema crônico e mal resolvido. Não vai ser em isolamento, e em pânico, que se encontrará a saída. Bom livro, tocar piano, telefonar para as comadres, enviar mensagens, fica sem graça depois de um certo tempo. Tudo porque não paramos de nos perguntar: quando essa agonia irá acabar? Quisera termos a coragem de Bolsonaro para se suicidar amando seu próximo, ao cumprimentá-lo e abraçá-lo efusivamente! Fiando na crendice de que isso é apenas uma gripe mais forte. Viver em completa ignorância e alienação. Mas não consigo, se sei que, mais adiante, a conta de tudo aquilo que me recusei a aceitar como realidade e adquirir consciência, será espetada em meu peito e cobrada sem subterfúgios. Mas, e os outros? Continuo, sozinho, a seguir em minha caminhada. Cantando Gilberto Gil em 1980: “Se eu quiser falar com Deus / Tenho que ficar a sós / Tenho que apagar a luz / Tenho que calar a voz / Tenho que encontrar a paz / Se eu quiser falar com Deus / Tenho que aceitar a dor / Tenho que comer o pão / Que o diabo amassou / Tenho que virar um cão / Tenho que lamber o chão / Tenho que me ver tristonho / Tenho que me achar medonho / E apesar de um mal tamanho / Alegrar meu coração / Se eu quiser falar com Deus / Tenho que me aventurar / Tenho que subir aos céus / Sem cordas pra segurar / Tenho que dizer adeus / Dar as costas, caminhar / Decidido, pela estrada / Que ao findar vai dar em nada / Nada, nada, nada, nada / Nada, nada, nada, nada / Nada, nada, nada, nada / Do que eu pensava encontrar”.

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