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DESCULPEM, MAS NÃO DEU MAIS!

Teor da carta de suicídio de Flávio Migliaccio, em 4 de maio de 2020: “Me desculpem, mas não deu mais. A velhice neste país é o caos, como tudo aqui. A humanidade não deu certo. Tive a impressão de que foram 85 anos jogados fora num país como este e com esse tipo de gente que acabei encontrando. Cuidem das crianças de hoje”.
67 anos de atividade como ator de novelas, de cinema e de teatro, diretor e roteirista, Flávio Migliaccio suicidou-se no seu sítio, se enforcando. Um suicídio para causar impacto, dependurado numa corda e inerte. Ele não avisou à família, nem se despediu. Não aguentava mais viver numa pocilga como o Brasil atual em concomitância com sentir seu corpo deteriorar-se rápida e irreversivelmente pela idade avançada. Seu filho Marcelo nele reconhecia uma enorme inteligência, difícil demovê-lo de alguma coisa em que acreditasse. Seu pai fez vê-lo que a maior prova de amor que se pode dar a uma pessoa é respeitar suas convicções, suas decisões, seu jeito de ser e de não ser.
Ficou evidente que o pensamento suicida já fazia parte da rotina do grande artista há algum tempo. Dizia o filho que “numa de nossas últimas conversas, eu tentava, mais uma vez em vão, motivar aquele homem cansado, desiludido com a avalanche fascista que está tomando conta do planeta”. O mundo está um lixo, segundo Flávio Migliaccio. Dias depois, ele deu outra razão para justificar seu desejo de sair definitivamente de cena: ‘Se já não escuto direito e minha vista constantemente falha a caminho de só distinguir sombras, a memória, em breve, irá de encontro ao espaço sideral, mergulhando no vazio. Daqui para frente, só vai piorar. Já vivi demais, chega!’.
Flávio Migliaccio foi levado a quatro psiquiatras, não se adaptando aos efeitos dos antidepressivos e nunca aceitando a sugestão de frequentar sessões de psicoterapia. O filho usou de todos os argumentos, mas o pai não queria mais jogar. Era uma decisão tomada, muitos anos antes daquele domingo em que ele disse que daria uma caminhada pelas redondezas e sumiu. Procurou se desvencilhar do caráter deprimente e doloroso da morte, julgando estar ingressando no portal de libertação de sua alma, em sendo ateu. Ou seja, se livrando do cerco movido por problemas insolúveis, sob a tutela de maus espíritos que só queriam a sua desgraça, transformando-o em alvo fácil em face de sua integridade psíquica já vir desmoronando. Recusou peremptoriamente o papel de objeto de expiação. Submeter-se a provações ou carmas. Isso não, chega!
Ele que foi o intérprete de personagens inesquecíveis, como Tio Maneco, Xerife, Seu Chalita, a personificar uma forma de atuar que sempre agradava ao público infantil ou a mentes não oprimidas, por ser absolutamente leve na maneira de se expressar. A sinalizar uma capacidade de resolver novos conflitos e adaptar-se a situações surpreendentes em nada compatíveis com o suicídio.
Porém, Flávio Migliaccio se deixou envolver pelo pessimismo e pelo clima de falta de alternativas, ao não conseguir abrir sua mente justamente quando estava a poucos passos de um Novo Mundo que iria acolhê-lo em razão da grandeza de sua alma demonstrada ao longo de sua encarnação.
Descreu do mundo em descompasso com sua trajetória exitosa na arte.

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