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A DOENÇA COMO FONTE REGENERADORA DO ESPÍRITO

Nara sempre teve uma tendência a se deprimir. Fácil culpar sua vocação para engordar, cronicamente insatisfeita com sua aparência, embora profissionalmente vir acumulando sucesso e pontos que foram lhe valendo galgar degraus, aos quais não dava o devido valor, pois nasceu enjoada e cheia de vontades.
Nem ingressando na diversidade sexual se integrou, sequer transformando sua fisionomia saturada com a mesmice do dia a dia, fadada a não ser feliz nessa encarnação – pensando até em suicídio.
Até que sentiu a visão duplicar e embaçar não poucas vezes, passou por uma infinidade de exames, recebeu altas doses de cortisona por via venosa, dois meses de cama, alternando períodos de estabilidade durante meses ou anos interrompidos por surtos de piora com dias ou semanas, exacerbação e recaída, quando sobreveio o diagnóstico definitivo antecipado pela cegueira eventual: esclerose múltipla.
Uma doença autoimune para a qual não existe cura e que pode ser incapacitante, quando seu corpo, sua visão e funções cognitivas eram seu instrumento de trabalho, sua fonte de renda, sua alegria de viver, sua verdadeira beleza. Atualmente, o tratamento prescrito tem por objetivo cuidar das recaídas, prevenir novos ataques e aliviar os sintomas que interferem na qualidade da vida. Sorte de Nara que sua esclerose era branda e pôde ser controlada com injeções e ginástica, que detesta, fazendo pouco caso.
Por um largo tempo, preferiu manter segredo com medo do preconceito. Mas o segredo se tornou pesado demais para carregar. Com a doença sob controle, Nara foi digerindo, entendendo e juntando os cacos dos malefícios que se abateram sobre ela, concluindo que poderia ajudar a combater a ignorância, a maior ameaça que recai sobre todos os seres humanos. Desconhecendo que, a caminho, sua própria ignorância também estava sendo obrada.
Abriu um espaço na internet para trocar experiências sobre esclerose múltipla de modo a facilitar a passagem por essa estrada para quem nela for obrigado a ingressar. Quebrando o sigilo de sua enfermidade, imbuída do propósito de superar o que lhe faltava, mas só avançando até “eu não estou doente, tenho uma doença”.
O que Nara também desconhece é que, no afã de evitar um agravamento progressivo da doença compartilhando sua dor nas redes sociais, a esclerose surgiu manifestamente para mudar sua vida, fazê-la abandonar sua posição encastelada de menina mimada, de há muito ultrapassada, e movendo-a para encontrar seu lugar e onde se encaixar.
Ao entrar em contato com outros enfermos, assegura-lhes em sua caminhada a necessária mão forte quando abraça a causa comum, e culmina por também se ajudar, crescendo espiritualmente como ser humano.
O mal como fonte geradora para se galgar degraus na espiritualidade. O mal que é do bem. Pouco reconhecido por advir do sofrimento e das desventuras.

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