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A GRANDE MENTIRA

Pinóquio, o famoso boneco de madeira, e o seu nariz que cresce a cada mentira, como método de punição, ainda mobilizam o nosso imaginário. Embora a relação com a mentira seja o ponto mais marcante do personagem na atualidade, o tema apenas ocupa um capítulo dos 36 do livro do escritor italiano Carlo Collodi, “As aventuras de Pinóquio”, lançado em 1883. Pinóquio viria a engolir o seu criador, 57 anos depois quando ganhou vida nos estúdios da Disney.
A obra de Collodi não é sobre uma criança que mente, e sim sobre uma criança que busca se adequar ao que outros pensam ou esperam dela. A preocupação de um menino de como se inserir no seu meio – e, mais tarde, na sociedade. Mas quando uma história ganha uma proporção tão grande e vira um clássico perene, que nem seu escritor tomou conhecimento, com alguns detalhes se destacando e outros que foram se perdendo, por que será que o tema mentira se sobressaiu tanto?
A mentira é explorada no livro como o vício pior que um menino pode adquirir. Pinóquio vai se perdendo à medida que o nariz cresce em consequência à mentira. Embora seja natural o pré-adolescente ficar entre a cruz e a caldeirinha, a desobediência costuma acompanhar o desenvolvimento de sua personalidade, principalmente se o que almeja não é considerado próprio para sua idade.
Pinóquio continua em evidência como parâmetro de mentira deslavada de líderes de Estado. Do autoritarismo dos governos fascistas dos anos 1930 ao autoritarismo digital dos dias de hoje, Pinóquio sempre presente. De novo popularizado em 2016, após a eleição de Trump e o plebiscito sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, mais recentemente com Bolsonaro, todos marcados pela disseminação de fake news. Mas que não é, como muitos pensam, um mero sinônimo da mentira, por expressar uma realidade em que não se pode mais distinguir a verdade da mentira, a não ser que seja muito bem informado, tenha tutano suficiente para distinguir quem são os verdadeiros patifes, e perceber quais são as tramas e armações que lhe são dirigidas.
Pinóquio se sofisticou com a tecnologia. A relação do personagem com a mentira é humana, enquanto no mundo atual vivemos falsidades comandadas por algoritmos e robôs. Nos aplicativos que modificam nossa aparência, sem processo de edição pessoal. Construindo imagens em um horizonte opaco, onde perdemos a fronteira do que é real, do que é fictício ou mesmo do que é projeção.
Se partes da história de Pinóquio funcionavam como uma espécie de aviso às crianças sobre o quão perigosa e cruel a vida pode ser, imagine o mundo transformado numa grande mentira em sua forma de se organizar e gerir seu sustento e bem-estar, provocando danos irreparáveis à democracia e à representatividade popular, maculando instituições como o Supremo Tribunal Federal com indicações de juízes terrivelmente evangélicos, aqui e lá (Estados Unidos).
Quando antes as pessoas sempre mentiam umas para as outras ou sempre ouviam mentiras, sendo a divergência finalizada na base do confronto e da força, mas não passava disso. O mundo hoje considerado mais inteligente e evoluído prefere a grande mentira, com o avanço da tecnologia a seu serviço, a afiançar a hipocrisia reinante.

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