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A IDADE MÉDIA NÃO COMO A IDADE DAS TREVAS, SEGUNDO LE GOFF

Considerado um dos maiores especialistas em História Medieval, o recém-falecido historiador francês Jacques Le Goff, chamado de ogro historiador por causa de seu imenso apetite pelo estudo da História, defendeu a Idade Média não como um período de trevas como é conhecido, mas sim de nela ter sido criado um novo sistema baseado na economia agrária e também reinventados os centros urbanos com conceitos que permanecem ativos até hoje – a presença mais forte dos princípios do capitalismo que lá atrás começaram a se enraizar. Além da importância crescente da universidade que tornou a divulgação do conhecimento uma atividade profissional separada do labor puramente religioso.
Extremamente corajoso ao afirmar que a Idade Média foi um período criativo e dinâmico ao observar o brilho da criação artística do estilo românico ao gótico nas catedrais em contrário senso da visão obscurantista do renomado poeta italiano Petrarca, que criou a expressão Idade das Trevas nos anos 1300, disseminada no mundo inteiro – a Idade Média como uma fase decadente da Europa entre os períodos iluminados do Império Romano e do Renascimento.   
Defendeu a tese de que o Renascimento não assinala o fim da Idade Média e sim um período importante no campo das artes que deu continuidade à constituição de Estados ao longo da Idade Média, mas ainda marcada ideologicamente pela presença da Igreja Católica na formação das nações com o Papa se imiscuindo na política e teólogos substituindo os filósofos da Antiguidade. 
O mantra “Não estamos mais na Idade Média” não se deve à mulher ter sido depreciada na sociedade cristã medieval, como nos acostumamos a acreditar, quando a mulher já era vista como um ser degradado pela memória do pecado de Eva, à medida que as escrituras sagradas foram se cristalizando ao correr dos séculos e essa interpretação ganhando corpo. Reforçado pela impossibilidade institucional e espiritual de as mulheres exercerem o sacerdócio, rebaixando-as a uma categoria inferior à dos homens. 
Por muito tempo, o artista foi anônimo ou considerado apenas um artesão. A partir do momento em que o personagem do artista adquire em certas cidades italianas prestígio social e profissional, como no caso do pintor Giotto (1266-1337), notório é o vínculo à sociedade da época dessa dimensão maravilhosa do ser humano que é a criação, refletindo a experiência, o pensamento e o sentimento de seus integrantes. Ainda mais se, agregado à excelência do artista, a criatura à imagem e semelhança de Deus, o mote do pensamento cristão vigente.         
O dinheiro começou a adquirir na Idade Média um valor e uso econômico de real peso para as transações, insuflado pelas urbes, na evolução das feiras itinerantes à estabilidade dos bancos, mas também visto como incitação ao pecado da usura com o lucro excessivo à custa do juro extorsivo. A cidade medieval dividida entre a prosperidade e a condenação do dinheiro, entre distinguir o que há de legítimo na cobrança de juros pelos credores e o uso ilegítimo que fazem dele os agiotas, com a Igreja Católica e as monarquias não desejando reprimir o progresso econômico e a marcha dos indivíduos rumo à riqueza.   
Por isso, Le Goff acertou em cheio ao ironizar o mantra de que não estamos mais na Idade Média. Mais cômodo é esconder o fato de que a nossa modernidade deve muito aos tempos medievais, para o bem e para o mal. 
Se Le Goff, especialista no estudo do capitalismo a partir da Idade Média, afirma que “o poder corrompe; fazer política é trair mais ou menos os seus ideais”, é porque ainda nos encontramos na Idade das Trevas, em matéria de ética. E não na Idade Média.

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