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CAPÍTULO XCII – O ESPÍRITO DE FÉNELON

Fénelon, prelado, teólogo, orador e escritor francês, foi convidado pelo Espírito da Verdade a participar, a partir de 1857, junto a uma plêiade de luminares espirituais, na Codificação de “O Livro dos Espíritos”, “O Evangelho segundo o Espiritismo” e “O Livro dos Médiuns”, sob a batuta de Allan Kardec. Encarnado de 1651 a 1715, circularia por boa parte de sua existência entre bispos que, à época, também podiam ser nobres da alta linhagem. Direcionou-se para educar filhas de duques e foi preceptor do filho mais novo do rei Luís XIV e herdeiro do trono, o Duque de Borgonha, quando, a título de corrigir o comportamento do príncipe através de fábulas, pôs a dialogar personalidades históricas do passado, empenhadas em reavaliar sua postura e seus próprios atos no curioso e criativo texto “Diálogo dos Mortos”. Numa época marcada por reis, nobres e povos se matando por divergências religiosas entre catolicismo e protestantismo, Fénelon destoava pela tolerância com ideias diferentes das suas e afabilidade e benevolência dirigidas a todos com quem debatia, traços marcantes de sua personalidade. No entanto, chamavam a atenção suas ideias liberais sobre política e educação, já adensadas pela efervescência espiritual saindo por seus poros. Em 1697, a Santa Sé condena a obra “Explicação das máximas dos santos sobre a vida interior” e ele é privado de seus títulos e proventos. Também cai em desgraça perante o rei, que descobre críticas a seu governo no romance pedagógico “As aventuras de Telêmaco”, em 1699, banindo-o da corte. Aceitou o revés com humildade e recolheu-se a uma vida austera em sua diocese, mas replica com uma reforma política em pleno absolutismo no livro “O exame de consciência de um rei”. Já como espírito, confessou que, em sua última encarnação, passou pela tortura de conviver com a ação de pessoas malévolas. Muito embora reiterando que Deus, sempre presente, coíbe, nesta vida e na outra, aqueles que falham na lei do amor ao próximo.
Em “O Livro dos Espíritos”, Fénelon realçou que, de todas as imperfeições humanas, o egoísmo é a mais difícil de desenraizar-se porque deriva da influência melíflua da matéria. O homem, não conseguindo libertar-se de seu ego, não faculta à vida moral predominar sobre a vida material e transformar seus hábitos e suas relações sociais.
Em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, Fénelon observa que, quando um homem de bem morre, se o vizinho da casa ao lado é daqueles que não sossegam e compram confusão a toda hora, dizeis que teria sido bem melhor que este tivesse ido embora. Ignora para quem parte que acabou sua tarefa e, o que fica, talvez nem a tenha começado. O espiritismo considera a libertação do invólucro carnal como a verdadeira liberdade, e a existência na Terra um cativeiro. Se a felicidade pura não existe na Terra, sujeita a provações e expiações, por que motivo o homem se conduz ávido por tudo aquilo que possa vir a perturbá-lo, criando propositalmente tormentos que dependem só dele evitar? Fénelon ressalta que mesmo o pior dos homens faz jus à chama do fogo sagrado do amor, que é de essência divina, ainda que rebaixem a lei do amor ao estado de instinto. Para alguns, a prova da reencarnação é inaceitável e causa horror, limitados a um círculo íntimo de parentes ou de amigos, quando deveis passar a amar todos os vossos irmãos indistintamente. A lei do amor um dia destruirá o egoísmo sob qualquer forma que se apresente, seja o egoísmo pessoal ou o restrito à família, à religião, ou à Pátria querida – o limite é a Humanidade.
Em “O Livro dos Médiuns”, Fénelon visualiza somente irmãos no mundo espírita, estendendo as mãos uns aos outros, não admitindo qualquer rivalidade, a não ser a do bem. Ensejada pela grandeza de alma, abnegação, benevolência, bondade, humildade, norteada pelo senso coletivo, jamais operando isolado. O que atirar pedra no outro provará que se acha sob interferência espiritual maligna ou obsedado por maus espíritos.
A octogésima nona intervenção espiritual, em 25 de outubro de 2019, se iniciou com cânticos no intuito de abrir caminho para os espíritos curadores, prosseguindo com a leitura e comentários sobre o item 14, do primeiro ao sexto parágrafo (“Desprendimento dos bens terrenos”) do capítulo 16 (“Não se pode servir a Deus e a Mamon”) do livro de Allan Kardec, “O Evangelho segundo o Espiritismo”.
Compreende-se que, por um trabalho constante e honrado, se atinja a riqueza e experimente uma satisfação fora do comum. Mas daí a um apego que absorva todos os seus sentimentos e esfrie seu coração, há uma distância tão grande quanto da avareza sórdida ao esbanjamento exagerado, dois vícios contra os quais Deus observa aos ricos a dar sem orgulho para que o pobre receba sem humilhação. Por que um pai de família procura legar a seus filhos a maior quantidade de bens possíveis, com a reles desculpa de não os deixar na miséria, se ele mesmo já tem muito mais do que o necessário para suprir várias gerações e ainda teme que eles herdem um pouco menos desse supérfluo? Não será uma lição de egoísmo e endurecimento do coração? Por que vos apegais a uma riqueza tão perecível e passageira quanto vós? Já pensastes que dia irá chegar em que devereis prestar contas ao Senhor dos bens que acumulastes e que, em verdade, vos emprestou? E se Deus vos emprestou, deveis restituir! Já pensastes que poderíeis ser um de seus inteligentes distribuidores na qualidade de ministro da caridade aqui na Terra? O que resulta desse esquecimento voluntário de vossos deveres? O retardamento moral e espiritual!
Não vos enganeis, sois depositários e não proprietários! Nada vos pertence na Terra, nem mesmo vosso corpo: a morte vos liberta dele, como de todos os bens materiais. Somos devedores uns dos outros. Somente pela união sincera e fraternal entre os desencarnados e encarnados será possível esse melhoramento.

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