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DEUS NA TERRA

Karol Wojtyla morreu. Comovente a resposta do mundo ao seu desaparecimento em reconhecimento ao trabalho pastoral desenvolvido por ele em favor da união dos povos e frontalmente contra as guerras. Conseguiu um tento inacreditável: comandou um processo de aparar as arestas entre as religiões, notadamente a judaica, apesar dos ortodoxos fazerem jus ao nome. Façanha maior foi se aproximar dos transcendentais asiáticos, aproveitando os refluxos filosóficos das andanças do Dalai-Lama. Ficarão gravados nas nossas mentes as andanças do Papa polonês pelo mundo afora e o beijo no solo, que cativaram a extrema religiosidade católica do brasileiro, tornada inesquecível na música “A Benção João de Deus” :
A benção João de Deus. A benção João de Deus, nosso povo te abraça. Tu vens em missão de paz. Abençoa este povo que te ama. A benção, João de Deus.
Entrou para a História como o Papa que derrubou o comunismo, que já havia se desviado há muito do leninismo inicial, ao abolir as classes sociais em nome de princípios que a Igreja defende, como igualdade e solidariedade. Quando, ao que se saiba, a Igreja defende a liberdade de expressão e as leis do mercado, desde que humanas e livres da ganância. Como resumo da ópera, pôs fim à Teologia da Libertação, tornando a divisão entre liberais e progressistas irrelevante e matando na raiz o padre comunista do papado de João XXIII. Como corolário, a expulsão do reformista Leonardo Boff.
A figura boa e humilde de João Paulo II combinava com o uso desmesurado do perdão. Louvável, em se tratando de perdão, mas avivou nossa memória quanto aos genocídios cometidos pelos países colonizadores contra índios e negros, com o endosso da Igreja Católica. O que nos remete à Inquisição.
Como águas passadas não movem moinhos, chocou a condenação do uso de camisinha e quaisquer outros métodos contraceptivos em favor da vida do nascituro, porque estimula a condenação à morte, por doenças sexuais, de milhões de pessoas que praticam sexo fora do tipo de casamento entendido por cardeais e bispos completamente distanciados da realidade do mercado do amor. Quando pregam a fidelidade e a abstinência como as únicas formas de evitar a pandemia, motivo de sofrimento e tristeza na África.
As restrições ao aborto indiscriminado são importantes na defesa da vida e na preservação da nossa espécie, mas a mulher não pode ser sacrificada. Ainda mais hoje, que ocupa um lugar do qual o homem não consegue mais tirá-la com as suas gracinhas de caráter hegemônico – um avanço irreversível. A Cúria não tem capacidade para aceitar as peculiaridades da evolução da mulher porque ainda a vê como uma matriz reprodutora do pensamento cristão.
O Papa valeu-se como ninguém dos meios de comunicação e tornou-se um mito. Mas deixou um flanco aberto. A sexualidade da Igreja – um tabu. Por se recusar a discutir a abstinência a que estão submetidos. Tanto que o cardeal Scheid mandou os estudantes de uma universidade esquecerem Freud. Quando a discriminação homofóbica partida da Igreja só encontra apoio em severinos. Ferindo os fundamentos mais primários da psicologia para se confundir com a figura do pai que é cego: quanto mais bater nos gays, mais eles se firmam e crescem. Quando se sabe que o povo hetero vive uma crise da qual não sairá enquanto o sexo masculino não reformular sua escala de valores, principalmente no que diz respeito à sua identidade que, no seu entender, o aproxima do gay. Haja vista os prelados pedófilos, um dos maiores escândalos do século XX, que os iguala a Michael Jackson.
É difícil eleger o Papa que a Igreja precisa. Teria de ser Deus. Os fiéis não concordam, por considerarem o Papa Deus aqui na Terra. Karol Wojtyla conseguiu.

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