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LINHA DE POBREZA

Nem a alma mais mesquinha contesta que a pobreza representa o principal problema do Brasil, embora há quem discorde votando na ignorância, todavia, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Senão, os evangélicos que se multiplicaram a uma taxa cinco vezes maior que a do país convertendo-se no segundo rebanho com 26 milhões de almas, propiciariam preocupações com falsos profetas, pastores charlatões e políticos oportunistas, quando respondem às necessidades de inserção, de agir conforme as regras do jogo e ordenar socialmente uma população à margem da sociedade onde nenhuma outra ONG ousa chegar. Se preocupação existe, é dos católicos que disputam os fiéis a tapa, pois desconhecem o boca-a-boca, a panfletagem e as técnicas de persuasão de um vendedor de enciclopédias.
53 milhões de brasileiros vivem abaixo da linha de pobreza, 30 na faixa de indigência, a renda per capita de 3.600 dólares não é baixa, mas a miséria persiste ad nauseam e garante o 74º lugar na ONU em desenvolvimento humano medido pela expectativa de vida, educação e renda. A láurea é do Brasil, a pior distribuição de renda do mundo. A concentração é tamanha que a fatia que resta do bolo não proporciona condições mínimas à maioria à beira de um colapso nervoso. Se houvesse maior justiça social, suavizaria o peso da culpa que detona a estéril polêmica em torno das siglas ricos e pobres, grupos mais e menos abastados ou a manjada luta de classes, já que o PIB per capita é oito vezes superior à linha de indigência e quatro à linha de pobreza.
Se a elite que comanda esse país autorizasse, seria possível reduzir a pobreza de 34 para 8% da população e causar falência na indústria de blindagem de automóveis. Entretanto, sua ignorância não capta que o cerco se estreita e o motel dos seqüestrados é final de linha, os helicópteros substituem as vias públicas rasgadas a soldo da corrupção e o legado a seus filhos é de envergonhar seus antepassados.
É bem verdade que uma empregada doméstica é rica se comparada ao miserável nordestino tendo a seca como horizonte. Mas será preciso atuar em outras frentes para que haja avanços além da queda da inflação com estabilidade financeira e política que aumentaram o crédito para consumo e mudaram o padrão de alimentação feijão-com-arroz, pois se solução houve foi importar a proteína da carne e do leite, enchendo a pança com biscoitos e chocolates, e pagar tributo ao estrangeiro, que só investirão se continuarmos a nos pasteurizar.
Contudo, o Brasil gasta muito dinheiro para ajudar quem não é pobre e pouco para ajudar aos pobres. Se transferíssemos menos de 10% da renda familiar, a linha de pobreza se elevaria acima do digno de lástima, com apenas 2% o fim da indigência, caso o dinheiro fosse entregue, sem nenhum desvio, diretamente no bolso do menos favorecido. Quando a caminho, as verbas não alcançam os pobres, capturadas por segmentos sociais melhor organizados: metade do orçamento das universidades públicas beneficia os alunos de famílias enricadas, na seguridade social, 40% dos aposentados recebem apenas 9% de tudo que o governo gasta com pensões, 65% é depositado no pico da pirâmide.
Se ridícula a distribuição de renda, a desigualdade torna-se maior que a das décadas de 70 e 80 porque o Brasil não pára de crescer, apesar da falta de solidariedade e humanitarismo. O que não nos torna acionistas dessa sociedade, visto que cresce economicamente voltado para não deter os efeitos perversos oriundos da pobreza e nem mesmo sensibiliza os ricos a investirem nos pobres para tirar um ganho com a expansão do mercado interno.
Qualquer modificação mais substantiva da realidade brasileira terá de passar por um autonivelamento na desigualdade de renda e da riqueza, sem o quê o cidadão brasileiro não se nivela sequer ao cidadão do Mercosul, de Cuba, Costa Rica, Portugal, Islândia, se medido em termos da ignorância que atravanca o progresso e do nível de cidadania que organiza cacerolazos contra os desmandos de políticos que abusam da boa-fé popular.
Como já se observa no aumento da possibilidade de escolha na pluralidade de religiões que questionam a hegemonia do cristianismo, seja na versão católica ou evangélica. Apesar de vir mascarada no censo como sem religião, onde se acomoda, além dos agnósticos, a nova era dos esotéricos, holísticos e religiosos sem religião que combinam práticas orientais com efeitos terapêuticos e medicinais. Que, somados aos kardecistas, umbandistas e candomblecistas, discretos na assunção de suas identidades, e aos freqüentadores de centros e terreiros que não perdem uma boa missa, configuram a cultura católica brasileira que concilia crenças e práticas aparentemente antagônicas, pouco afeita à demarcação de terrenos, falando o mesmo idioma na espiritualidade. Enfim, uma cultura de incluir, não de excluir.

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Antonio Carlos Gaio
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