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O OLHAR DE STALIN SOBRE O SUICÍDIO DE SUA MULHER E FILHO

Nadejda Alliluyeva orgulhava-se de sua modéstia bolchevique usando vestidos um tanto sem graça ao não modelar o seu corpo. Inserida num casamento típico da cultura comunista com um empedernido viciado em trabalho que não poderia ser um parceiro pior para sua esposa autocentrada. Embora capaz de agir como informante do marido, denunciando seus inimigos. Seus olhos irradiavam sinceridade a despeito de igualmente distante se perturbada por constantes ataques de depressão e enxaquecas crônicas.

Obcecado por execuções, Stalin acreditava que a solução para todos os problemas humanos seria a morte. Virou lugar comum, depois de morto e bem enterrado, considerá-lo uma aberração, quando seu sucesso à frente da ditadura do proletariado e consolidação do socialismo soviético não foi um acidente para quem reescreveu a história da Rússia de todos os Czares, se bem que perfeitamente coadunado às intrigas conspiratórias e ao dogmatismo homicida.
Stalin era amiúde agressivo e dado a insultar. Notório em estabelecer até onde seu interlocutor podia ir, enquanto Nadejda era orgulhosa e severa, demasiadamente sensível e de sangue cigano, georgiano, russo e alemão, como todos os Alliluyev. Ambos eram egoístas, autênticas labaredas de fogo lambendo quem ousasse contrariá-los. Muito parecidos, impulsivos em excesso. Nunca foi uma relação fácil, embora gostassem um da companhia do outro, amando à sua maneira.
Nadejda, ou Nádia, estava descontente sob o ponto de vista profissional. Queria seguir uma carreira bolchevique séria por seus próprios méritos. No começo dos anos 1920, datilografava para seu marido. As novas mulheres comunistas, feministas, desprezavam as donas de casa e secretárias como Nádia. A educação era uma das grandes realizações socialistas e havia milhões como ela. Em 1929, decidiu se tornar uma mulher poderosa do Partido e não saiu de férias com o marido, ficando em Moscou a fim de prestar exame para a Academia Industrial, onde estudaria fibras sintéticas. Mais interessada em seus estudos do que nos filhos, tratava-os com rigor, transparecendo que ela não era suficientemente forte para ser estudante, mãe e esposa de Stalin ao mesmo tempo. Angina ou misteriosas dores de cabeça ou tonturas e fraqueza, difícil imaginar um ambiente pior para uma mulher frágil do que a aridez cruel daquela panela de pressão do Kremlin permeada pelo bolchevismo marcial que tanto cultuava.
A energia incansável de Stalin a sugava e a deixava seca. Ele admitia que ficava desconcertado com as crises mentais dela, simplesmente não possuindo recursos emocionais para ajudá-la.
Em 9 de novembro de 1932, bebeu-se muito num jantar com inúmeras propostas de brindes que reunia a cúpula comunista exultante com os triunfos na industrialização e na coletivização das propriedades rurais empreendida por Stalin desde 1929. Mas a maioria era composta de administradores enérgicos de trinta e poucos anos capazes de construir cidades e fábricas contra todas as dificuldades, mas também de matar seus inimigos e travar uma guerra para esmagar os kulak (burguesia rural, pequenos e prósperos proprietários de terra). Políticos esbanjando teatralidade, violentos e pitorescos em suas túnicas e botas, machões e beberrões, egos flamejantes e revólveres em seus coldres.
Sem que os outros observassem, Stalin e Nádia, de repente, ficaram bravos um com o outro – o que não era raro. A noite para ela começou a desmoronar quando, entre brindes, danças e flertes ao redor da mesa, Stalin mal notou como ela se vestira, desta vez com charme, ainda que fosse uma das mulheres mais jovens presentes – ela com 31 anos e Stalin com 54. Uma grosseria nada incomum em inúmeros casamentos. Irritada com a falta de atenção, Nádia tratou de dançar com seu padrinho georgiano e oficial no comando do Kremlin, que já chocava o Partido em seus casos com bailarinas adolescentes. Talvez Nádia quisesse desestabilizar Stalin. Embora Stalin não fosse mulherengo: estava casado com o bolchevismo e comprometido emocionalmente com a própria causa da Revolução.
Os ataques de depressão de Nádia insuflavam o desapontamento com o vestido, a política, o ciúme e a inépcia de Stalin como um homem rude que se impôs. Gritava frequentemente com o marido, censurando-o em público e o humilhando. Assediado por Nádia, de olhos desvairados, a imagem de Stalin como marido dominado pela mulher soava absurda. Estava ficando cada vez mais histérica e instável como todos os Alliluyev, alheia às crianças e a todo o resto. Tudo a entediava, não conseguia se controlar, cheia de tudo. Stalin não era o único que demonstrava perplexidade.
Mulheres do Partido observaram-na a não abandonar Stalin em momento tão difícil que enfrentava ao extinguir os últimos resquícios de propriedade no campo com milhões de pessoas morrendo de fome, e incerto da lealdade de seus camaradas, ao redobrar o impulso da coletivização e a corrida para industrializar a todo custo. Tudo que não precisava era de uma esposa perturbada.
Nádia deu voltas e voltas ao redor do assustador Kremlin, como outros faziam em tempos de crise, e ingressou em seu quarto para abraçar sua solidão sepulcral de posse de uma pistola feminina (Mauser) em um elegante coldre de couro, presenteada pelo irmão Pavel – pistolas não eram difíceis de encontrar naquele círculo. Stalin, sempre que chegava em casa tarde da noite, não se dirigia para ver a mulher, simplesmente ia para a cama, em seu quarto, do outro lado do apartamento – costumava ficar na cama até as onze da manhã.
No início da madrugada, Nádia ergueu a pistola até o peito e puxou o gatilho uma vez. Ninguém escutou o estampido, as paredes do Kremlin eram grossas. Morreu instantaneamente em consequência de um ferimento aberto no coração. Seu corpo rolou para fora da cama. Foi encontrado no chão, já frio, no meio de uma poça de sangue, com a pistola próxima – o suicídio fazia parte do desenrolar da epopeia comunista.
Não avisaram logo a Stalin, primeiro os encarregados pela segurança do Kremlin. Enquanto o líder russo dormia para apagar a bebedeira num lado do apartamento, sua esposa dormiu para a eternidade no lado oposto. Ao procurarem pelos motivos do ato de desespero, encontraram a carta irada que ela deixara. Ninguém nunca soube o que ela continha ou se Stalin a destruiu.
Quem iria acordar e dar a notícia a Stalin de que Nadejda Alliluyeva não estava mais entre nós? E como ela morrera. Stalin ficou arrasado: “Como ela pôde fazer isso comigo? Ela destruiu minha vida e me mutilou!”. Lamentando sua falta e às crianças. Os rumores: será que a insultara de novo e ido dormir, abandonando-a para que se matasse? Ou por outra: como Stalin se recuperaria e qual seria o efeito dessa humilhação sobre ele, seu círculo de poder e sobre a própria União Soviética? A vingança por esse fracasso pessoal seria o êmbolo do terror que estava por vir? Explodiu em ataques de raiva, culpando todo mundo, até os livros que ela ia. Nunca conseguiu entender por que aquilo acontecera, o que de fato significava. Por que ele recebeu aquela terrível punhalada nas costas? – não devia desconhecer que as pessoas sempre se suicidam para punir alguém.
O suicídio da mulher de Stalin não poderia ser anunciado publicamente, apesar da perícia não oficial tê-lo atestado. Corria-se o risco de interpretarem como uma afronta ao regime ou mesmo protesto político, sendo melhor encobrir com a versão da apendicite. Configurou-se como o primeiro de muitos funerais em que a causa mortis seria escondida da maioria.
Nádia pairou sobre Stalin como uma nuvem negra, repleta de descargas elétricas, até sua própria morte. Sempre que encontrava uma pessoa que a conhecia bem, ele desandava a falar de sua personalidade e como não conseguia viver sem ela.
Assim como a morte de Yakov pesou sobre a existência de Stalin em seus últimos dez anos de vida. Filho de seu primeiro casamento e tenente do Exército soviético capturado logo no início da invasão alemã à União Soviética, em julho de 1941. Quase dois anos depois, a derrota na batalha de Stalingrado propiciou a rendição sem precedentes do marechal de campo alemão Von Paulus, humilhando de tal forma Hitler que ele propôs trocá-lo pelo filho do Stalin para dar um fim no constrangimento de ambas as partes. Yakov viria a morrer em abril de 1943, suicidando-se ao se jogar sobre a cerca eletrificada do campo de prisioneiros de Sachsenhausen, em sequência a Stalin ter se recusado a trocá-lo, ao não se valer de seu prestígio na hierarquia de comando do país e passar por cima dos cadáveres de milhões de soldados russos e homens comuns que já se acumulavam durante a guerra – se todos eram seus filhos! transgressões.

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