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“OS ARREPENDIDOS”

O documentário “Os arrependidos”, de Ricardo Calil e Armando Antenore, foi o vencedor do Festival É Tudo Verdade, 26ª edição. É o segundo ano seguido em que o prêmio foi outorgado a quem retrata a resistência contra a ditadura militar brasileira. No ano passado, foi “Libelu – Abaixo a Ditadura”, que versa sobre a retomada do movimento estudantil nos anos 1970. A história dos arrependidos é pouco conhecida e documentada nos processos de mea-culpa de uns poucos militantes da luta armada no período mais violento da ditadura militar (início dos anos 1970). Considerados traidores, à época, pela esquerda militante ou não.
Porém o que se tornou conhecido foi o martírio de Manoel Henrique Ferreira ao denunciar o ‘arrependimento’ como massa de manobra da ditadura para desmoralizar as ações armadas da esquerda militante ou não. Em 2014, contraiu uma doença degenerativa que o levou a óbito cujo diagnóstico de ataxia cerebelar, de causas jamais esclarecidas, provavelmente se deveram às brutais torturas e humilhações que sofreu em quase nove anos de prisão política, corroendo a pequena noz que equilibra a vida, o cerebelo.
Ele era casado com Graça Lago, filha do também militante, ator e compositor Mario Lago. Ao lado de Nelsinho Rodrigues, um dos idealizadores do famoso bar e tradicional bloco carnavalesco do Barbas, nome alusivo aos militantes de esquerda que participaram da resistência à ditadura. Um dos fundadores do PT, Manoel foi integrante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8), organizações que participaram da tentativa de reação armada ao regime imposto após 1964. Nelsinho Rodrigues lembrou dos tempos de prisão na companhia do futuro sócio do Barbas, nos quais ficaram seis anos juntos e passaram pela Fortaleza de Santa Cruz, Ilha Grande, Bangu e Frei Caneca. Cid Benjamim assinalou que ele foi um dos 40 presos que conseguiram a liberdade após o sequestro do embaixador alemão Von Holleben, graças ao Manoel, que participara da ação.
Manoel Henrique Ferreira não foi beneficiado pela Lei de Anistia e só sairia da prisão em liberdade condicional. Contudo, em janeiro de 1976, Manuel escreveu uma longa carta ao então arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, relatando as torturas que sofreu e denunciando o traumático processo de cooptação a que presos políticos foram submetidos para irem à TV e se declararem ‘arrependidos’. Em ato de enorme coragem, Manuel foi a primeira voz a expor a farsa grotesca dos atos de ‘arrependimento político’, revelando como o aparelho de propaganda da ditadura apoiava-se na tortura, e mostrando a ligação direta entre os chamados ‘porões’ e a Aerp – Assessoria Especial de Relações Públicas da Presidência da República, o braço de propaganda da ditadura.
Ele era um sujeito doce, do pouco que o conheci ao frequentar o Barbas, bar e bloco carnavalesco. De sua fisionomia extraí o quanto se apavorou quando se viu rodeado de policiais, como recepção inicial de uma sessão de tortura, até cair em desespero, à medida que todos o iam espancando, xingando e ameaçando. Era terrificante, depois de torturado com choques elétricos, ouvir, dia e noite, sem parar, gritos e seres humanos sendo torturados. Foi quando decidiu enfrentar a realidade em que se encontrava subjugado, não mais se conformando em se tornar um farrapo humano à mercê de gorilas – ou, então, deveria se suicidar. Primeiramente, finalizar a pretensão de ser um revolucionário. Seguida de uma tomada de posição, muito pensada, de arcar com tudo sozinho e não mais se permitir qualquer concessão, vacilo, hesitação perante a repressão. Ao começar a denunciar nas Auditorias em que respondia a processos as arbitrariedades, as torturas e os assassinatos de presos políticos. Abandonando o servilismo diante de seus carcereiros.
Foi o que constou do longo depoimento de Manuel a dom Paulo, com 21 páginas descrevendo sua história pessoal, sua prisão, as torturas, e os relatos sobre a situação de outros presos.
É tudo verdade. Tortura nunca se esquece, sendo impossível de se apagar da mente.

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