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PAGU

Patrícia Galvão nasceu de uma tradicional família paulista. Um dos sonhos da normalista rebelde era conhecer o Cavaleiro da Esperança, Luís Carlos Prestes. Os caretas da época detestavam seu linguajar, modo de vestir e suas atitudes extravagantes. Com seus versos satíricos, deslumbrava pelo seu jeito atrevido.
O poeta Raul Bopp denominou-a Pagu, apresentando-a para a fina flor da intelectualidade paulistana. Foi logo apadrinhada por Oswald de Andrade e sua mulher, Tarsila do Amaral, que a projetaram como a musa da poesia modernista. Desse convívio nasceu um romance entre Pagu e Oswald, que abandonou Tarsila, escandalizando a todos com o novo casamento celebrado defronte ao jazigo da família do escritor.
Em 1931, o casal fundou o tablóide “O Homem do Povo” que, com suas críticas irreverentes à moral hipócrita da sociedade paulista, incitou a ira dos estudantes de Direito do Largo São Francisco – reduto da nata oligárquica. Empastelaram o jornal a título de estágio comprobatório para o exercício da profissão.
Pagu participava intensamente da vida política e logo evoluiu nos quadros da militância do Partido Comunista, radicalizando de tal forma que conseguiu afastar seu fundador, Astrogildo Pereira, acusando-o de intelectual. Em 1932, afastou-se de Oswald e do filho Rudá para levar uma vida proletária no Rio de Janeiro – família e amor materno, um desvio pequeno-burguês. Incumbiu-se de missões do PCB, se valendo do sexo para obter informações do inimigo capitalista.
Em 1935, participou do comício que lembrava a condenação à morte dos anarquistas Sacco e Vanzetti nos EUA. Tornou-se a primeira presa política torturada no Brasil. Conseguiu escapar das garras de Filinto Muller e iniciou uma longa viagem pelo mundo. Circulou por Hollywood, foi até a China, viajou pela Transiberiana para Moscou e se decepcionou com o stalinismo. Depois de entrevistar Freud, partiu para a França, onde fez contato com Sartre, Ionesco e Arrabal. Ingressou na Juventude Comunista e foi detida numa manifestação de rua. Não fora a intervenção do embaixador Souza Dantas, teria sido deportada para a Alemanha, já que sua mãe tinha ascendentes germânicos.
Retornou ao Brasil em frangalhos. Como resto a pagar da Intentona, ficou encarcerada até 1940. Lembrou Olga Benário quando suplicou à sua família para interceder junto a Oswald de Andrade para que pudesse rever Rudá.
Ressentida com os companheiros e o PCB, vinculou-se ao jornal “A Vanguarda Socialista”. Seu primeiro artigo foi uma crítica demolidora ao livro “Vida de Luís Carlos Prestes”, de Jorge Amado. Posicionou-se contra o chamado teatro esquerdista, só abrindo exceção para Brecht.
Em 1949, tentou o suicídio com um tiro na cabeça. O crítico literário Geraldo Ferraz já era seu companheiro e assim continuou até o fim de seus dias. Em 1950, não se elegeu para a Assembléia Legislativa de São Paulo pelo PSB e encerrou seu ativismo político. Após anos de exercício como agente cultural em Santos, contraiu um câncer e quis morrer no estrangeiro, distante da Pagu que virou um mito. Outro ensaio de suicídio e o retorno ao Brasil para morrer junto à família em 1962.
Moral da história: assim como o Partido Comunista não pode confiar na conversão de qualquer burguês à causa, devido ao insurgente não conseguir abrir mão de suas posses, o amor livre está sujeito aos mesmos abalos. Sucumbe à lenda envolto em canalhices sexuais em nome da liberdade para romper as cadeias da família e colide com a imensidade da oferta que propicia o amor. De tão genuíno e singular que se pretende exclusivo.

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