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QUE PETULÂNCIA!

A globalização é uma cirurgia estética para reparar culturas cuja beleza artística encerra uma representação sensível da verdade de seu espírito, por que não dizer divino, num contexto harmonioso de traços e de cores. O implacável bisturi opera culturas dignas a caminho de passar a limpo costumes e padrões com a qual fomos colonizados. Mesmo sem o saber, tentamos encontrar o fio da meada de uma nova vida que ainda não se inventou, a apologia de uma sociedade que faça esquecer essa e descobrir outra, de maneira a não permitir nos bastarmos e dormir de touca.
O que falta aos brasileiros superarem é o sentimento de inferioridade e passividade diante de situações em que não cabe o silêncio. Não é necessário exagerar como os italianos que brigam por qualquer motivo, mas o Brasil não dá valor a si como indivíduo e ao país. Um pentacampeonato mundial de futebol não vale nem de remendo, apenas um afago na cabeça, diante dos empréstimos-tampão do FMI necessários à estabilização na manutenção do gigante adormecido.
Nos falta mais convicção para afrontar o bom senso e agredir a estética do Primeiro Mundo, como a desfaçatez dos alemães ao submeterem Berlim a uma cirurgia reparadora que apagará todo e qualquer vestígio de sua recente História, operando a assepsia do passado comunista de 5 décadas. Sob o pretexto de maquiar a cidade para a Copa do Mundo de 2006, em escolha com cartas marcadas que equipararam a FIFA à CBF. Maquiar, maquiavelice, um ato político de não querer restaurar para preservar a estética.
Em menos de um século, os alemães geraram Hitler do ovo da serpente para arrasar quarteirões e elevaram o Muro de Berlim para resguardar o paraíso comunista. Sob os escombros dessa realidade, estudantes terão dificuldades para estudar e refletir sobre os desígnios teutônicos. Berlim se transforma num centro experimental arquitetônico para refletir seu design, a marca registrada de suas linhas arrojadas, demonstrar a força de seu aparato doméstico com luminárias que irão manter a distância a obscuridade, em sintonia com a modernidade de bom gosto que funciona como coveiro do passado.
Todavia, quem haveria de dizer que a Torre Eiffel, aquele mafuá de ferro montado a título provisório, iria se converter no símbolo de Paris? Sonham os alemães ao pretender vender Berlim como o símbolo do marketing, da exposição, da feira, do modelo a ser copiado depois de patenteado. Para recuperar o prestígio da Berlim de Bauhaus e ganhar fama. Para ganhar, ganhar sempre.
Que petulância!
Pois é o maior atributo da mulher carioca, seja tribufu, mais ou menos – a pior situação -, ou com a calça jeans na linha da bunda, umbigo à mostra com piercing e bustiê que torne os seios pequenos em grandes. Que discute com veemência os absurdos de uma eleição sem o menor pudor de que o conteúdo do pensamento deixe a descoberto preconceitos que orientam a decisão racional do eleitor. Plena de sensualidade, ávida por uma troca, busca nas divergências pontos de contato nunca dantes explorados, mesmo que isso implique em achar que você é muito conservadora, você é metida a ser mais do que é, sua petulante.
Petulância é um estágio anterior à arrogância, tônica do processo eleitoral no qual se acredita em verdades absolutas difíceis de se concretizarem. A petulância nos afasta do amor ao próximo, portanto, de nós mesmos, sob o subterfúgio leviano de nos defendermos, do espectro que somos, a imagem que projetamos, o brilho que esvanece.
Petulância desumaniza, desanima a quem queira se aproximar, esfria o sentimento que almeja o maior calor do mundo, antipatiza e desperta o medo de contaminação, doença não detectável em laboratório.
Petulância não impede de dizer que eu te amo, te desejo, alimenta a posse que nos abençoa e redime porque consagra o sentido de família e lar, o que nos tranqüiliza e assegura a paz.
Petulância, um dado superficial que só se mantém nas aparências, pra esconder o verdadeiro desejo de se entregar sem maiores reservas. Ai, quem dera se pudesse acreditar!
Que petulância!

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