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SAIR DA VIDA E ENTRAR PARA A HISTÓRIA

Se deixarmos de lado a vista grossa e cansada da guerra, procurando nos fixar bem nos gomos da bola, que rola macia no tapete mágico dos gramados, iremos captar, através dos olhos das câmeras de TV, sinais emitidos, em resposta a algumas questões que não conseguimos entender. Tal como quando consultamos uma bola de cristal.
Por exemplo, qual é a correlação que existe entre o goleiro da seleção chilena de 90 e Pinochet?
O Chile queria se classificar a qualquer preço para a Copa do Mundo, eliminando o todo-poderoso Brasil no Maracanã, diante de 150 mil pessoas. Rojas foi o escolhido para esconder uma gilete na luva e se cortar no momento apropriado, aproveitando-se do crescente índice de criminalidade para desclassificar o Brasil como marginal. Acabou contando com a cumplicidade de uma torcedora que disparou um foguete sinalizador a fim de comemorar uma bola saída pela lateral. Fingindo-se de morto, Rojas foi retirado de campo todo tingido de iodo pelo massagista. A farsa resultou em suspensão do Chile e num surto feminista que as levou a entender de futebol e apagar essa imagem de ignorância.
Pinochet merecia o Oscar de efeitos especiais, ao abandonar a fantasia de alquebrado e senil. A múmia acorda e o monstro revive. Levanta-se da cadeira de rodas, dá um bico na bengala e corre para o abraço de militares, parentes e fã-clube. Ao som de sua marcha favorita, Lili Marlene. O que o fez recordar de suas inúmeras conquistas ali perto, no Estádio Nacional do Chile, quando torturava seus adversários, goleando nações, credos e raças, sem a menor piedade. Respiramos mais aliviados, o Brasil perdeu a láurea de paraíso dos bandidos para a Inglaterra.
Todos se esqueceram de que a câmera não é mais oculta. A tudo registra e constrange. Como o desfecho repetitivo das escolas de samba, onde mais uma vez se premiou o chamado desfile técnico, cuja preocupação reside no errar o menos possível diante dos jurados. Pouco importa se o público vibra ou canta a música “domingo no Maracanã”. Sempre na mira da justiça, polícia e apostadores, parece que os bicheiros ainda não se deram conta de que comandam o maior espetáculo da Terra, onde a lisura dos resultados tem que parecer honesta. Senão, aparece um biólogo americano querendo estudar o DNA de nosso folclore e conclui que jurado faz parte do banquete e escola sem patrono-bicheiro não prospera.
Não foi por outro motivo que Rojas foi pedir proteção no Brasil, afinal somos o Primeiro Mundo em futebol. Baixou a cabeça e bateu na porta do São Paulo, pedindo emprego de treinador de goleiros. Que o acolheu com compaixão, como convém a um bom patrão. Teria sido melhor Rojas aproveitar a grande chance de a gilete estar próxima do pulso e entrar para a História.
Quanto a Pinochet, para se consagrar de vez na História, só resta imitar os japoneses no que conseguiram imortalizar como paradigma da dignidade: o haraquiri. Ao menos, para não dar um gostinho de vingança à Isabel Allende, cerrando seus lábios, em sinal de respeito, pois que não param de metralhar “esse cadáver político, liberto pela compaixão britânica, na calada da noite”.

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