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SEE YOU LATER, ALLIGATOR

Quando pequena, meu avô costumava me chamar de jacaré. O apelido teve origem na época em que eu tinha o hábito de deitar no berço enrolada no lençol, de modo que só os meus olhos ficassem para fora, olhando atenta tudo ao meu redor. Eu gosto de pensar que este foi o motivo pelo qual a história que eu vou contar aconteceu.
Meu avô foi mecânico de aviões da Força Aérea Brasileira. Ser militar na época da ditadura não deve ter sido um trabalho fácil, especialmente para o filho de um italiano com ideais anárquicos e uma espanhola que vinha de uma família de artistas. De qualquer forma, eu acho que o meu avô, sempre bem humorado, tentava ao máximo se divertir, apesar das circunstâncias.
O trabalho dele consistia em sair consertando as aeronaves que, por algum motivo, haviam estragado antes de voltar para casa, seja em solo brasileiro ou fora dele. Ia para todos estes cantos obscuros do nosso continente atrás de aviões defeituosos e o que havia restado deles, em caso de acidentes. Não era raro, portanto, que algumas vezes a sua profissão o levasse para a floresta amazônica, ou a tantas outras matas que existem por aqui.
Além disso, meu avô era um amante apaixonado da natureza. Mesmo que algumas vezes a sua piromania traísse o seu amor (e o fazia sair colocando fogo com o seu Zippo antigo), ele era um verdadeiro admirador das coisas da terra. Na casa dele sempre foram criados vários tipos de animais, desde galinhas e codornas até lagartos estranhos. Sem contar, é claro, com os vários cachorros, gatos e papagaios que eram muito bem-vindos ali.
Quando eu tinha cinco anos, ele partiu para uma viagem ao Pantanal e, na volta, trouxe um animal de estimação um tanto quanto extraordinário. Eu me lembro que, uns dias depois de chegar, ele me convidou para ir ao escritório dele. O escritório ficava num tipo de segunda casa atrás da casa principal, depois do jardim. Era onde ele ia para ficar sozinho, ouvindo seus discos de música clássica e fumando cigarros feitos a mão com fumo de rolo.
As crianças não podiam entrar lá dentro nunca, a não ser que tivessem sido previamente convidadas e, por isso, quando ele me pegou pela mão e me levou até lá, eu sabia que deveria ser por algum motivo muito importante. E era. Entramos na sala que ele chamava de oficina e ele me mostrou uma gaiola grande de passarinho. Dentro dela não havia nenhum pássaro, mas sim um réptil. Um filhote de jacaré do papo amarelo. Ele era um pouco maior que uma lagartixa e menor que um calango de jardim e eu não entendia muito bem por que aquilo era incomum,mas sabia, pelo jeito que meu avô olhava para ele, que deveria manter segredo.
O jacaré não durou mais que uma semana. A minha avó, sempre muito tolerante com os hábitos do marido, logo descobriu o indesejado visitante em sua casa e viu-se obrigada a expulsar aquele animal ameaçado de extinção, declarando solenemente o velho e conhecido “ou eu ou ele”. Mesmo assim, fizemos uma pequena cerimônia de despedida, com os primos todos sem entender porque aquele bicho que parecia uma miniatura viva da Cuca teria que ir embora.
Alguns anos se passaram até o jacaré ser encontrado no parque da Lagoa do Nado, na Pampulha. Foi transferido para o zoológico, onde íamos visitá-lo de vez em quando, e gerou uma grande discussão entre os biólogos que tentavam desesperadamente entender como um bicho raro daqueles foi parar em um parque fechado. Meu avô, na frente da televisão, dava gargalhavas a cada vez que via os especialistas apresentando suas hipóteses.
O tempo passou, eu cresci, meu avô morreu e o jacaré viveu feliz e enjaulado para sempre. A história foi esquecida, até que, alguns meses atrás, sentada em uma mesa de bar, uma menina, que eu tinha acabado de conhecer, disse:
– Vocês se lembram de que, há uns anos, um cachorro foi atacado no parque da Lagoa do Nado por um jacaré do papo amarelo?
Todo mundo lembrava.
– Então, o cachorro era meu.
Sorrindo e tentando imaginar o que meu avô teria pensado daquilo, respondi para ela:
– E o jacaré era meu.

Gabriela Mudado

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Antonio Carlos Gaio
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