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TÔ NEM AÍ

“Nem tudo que cai na rede é peixe”. Não se sabe se os dizeres na camisa depreciam ele, um puta mulato que já foi forte e virou balofo, acusando sua decadência, outrora garanhão. Ou a ela, uma loura do tipo germânico, que engordou e ainda não apagou os últimos sinais de beleza e altivez que guarda em seus genes. Ex-sereia, rainha do mar, princesinha de Copacabana. Tô nem aí, se há felicidade no casal.
Em toda família existe um parente que não se acerta em nenhum emprego e que está sempre sobrando mês para completar sua grana, o popular morto de fome. Aquele de quem todos têm pena e arrumam um servicinho para descolar um dinheirinho e fingir que o ajudam. Como cuidar de uma avó que enfartou ou de um sobrinho que quebrou a perna. Tô nem aí, tem dignidade e cobra honorários, se orgulha em fazer o que sempre quis, por isso vive com prazer.
Tô nem aí para remediados que se afogam em dívidas e se arvoram na defesa de milionários, ambicionando um lugar à sombra deles, tamanha a covardia de assumirem o que são. Ninguém gosta de gente rica, um de seus dogmas. Se penduram em padrinhos abonados para não morrerem pagãos.
Tô nem aí para a noivinha que viu o noivo escorregar por entre seus dedos em meio a um assédio que entupia o celular dele de mensagens libidinosas, na mais pura galinhagem de que se tem notícia. Até que entrou no circuito o sogrão para moralizar aquela pouca-vergonha. Despediu-se de sua respeitável senhora, desejou um futuro alvissareiro à sua filha preferida e isolou o jovem mancebo das más companhias, ao construir um ninho de amor para os dois, à prova de invejosos que secam paixões arrebatadoras.
Tô nem aí pro moleque que convidou o primo para se exibir nadando e pegando ondas, tanto atiçando o pobre inocente que obrigou a progenitora a tirá-lo d’água quase afogado, enquanto o larápio aliviava a bolsa da família feliz. Tô nem aí pro exibido que levou toda sua poupança pra praia, engordada de antecipações natalinas descabidas, só porque já quis começar a sentir o gostinho de ser rico e acabou nu sem dinheiro no bolso.
Tô nem aí para guerra sem fronteiras entre mulheres quando o objetivo é encontrar vida em Marte.
Tô nem aí pra quem quer amar, tremendo que nem vara verde ao pôr em risco o que possui, com medo de arriar os quatro pneus e babar de desejo por alguém, mal disfarçando a convicção de que teias de aranha proliferarão se perder a volúpia. Sujeito à inércia de quem se condena ao isolamento. Tô nem aí pros narcisos paralisados diante de sua imagem.
Tô nem aí pra quem acha um grosso o sujeito sem meias palavras, um destemperado quando confessa seu desejo apaixonado com um beijo sem eira nem beira, levando em consideração que a sinceridade de propósitos exige elegância e sutileza de chá das cinco, quando o próprio Deus afirma, em alto e bom som, que o buraco aqui em cima é mais embaixo. E a gente não leva fé e toma de pisar em falso.
Tô nem aí para quem faz lambança em nome do amor e depois chora que nem manteiga derretida os maus passos, o atroz arrependimento de quem escolheu a amargura e se encaminha para se tornar um perdido no espaço. Ao invés de apenas virar a esquina e tomar outro rumo. Insistindo no fatalismo a que aparentemente estamos condenados, posto que somos dotados para reverter e fazer chover raios e trovoadas.
Tô nem aí para a incredulidade.

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Antonio Carlos Gaio
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