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UM POUCO DE MALANDRAGEM

Cada vez mais se explora em filmes biográficos as letras de músicas para contar a vida de grandes astros, como Cole Porter em “De-lovely” e Ray Charles em “Ray”.
Quem haveria de dizer que Ray nascido em “Georgia on my mind”, de uma família extremamente pobre, assistira seu irmão morrer, sem nada fazer, e ficou cego? Se iniciou no jazz, na heroína, num casamento para restabelecer a base familiar que reproduziu o pai ausente que nunca desfrutou. Misturou o vocal gospel com o blues, se perdeu dentre as vocalistas para encontrar o verdadeiro amor, e descobriu o som singular e inimitável de Ray Charles – rythm&blues e soul -, a marca do gênio em “What’d I say?”, “Hit the road Jack”, “I can’t stop loving you” e “Stella by Starlight”.
Quem haveria de dizer que o bon-vivant do Cole Porter cairia do cavalo, literalmente, depois de compor mais de 800 canções, pelo menos 100 eternizadas, com letras de grande sofisticação e brilhantismo técnico? O gosto por uma boemia de luxo e glamour em que circulou pelo grand monde europeu e americano por entre as pernas de mulheres à mostra, despertando paixão nos homens. A perna amputada tornou-o um recluso, apagando o brilho de sua estrela ao som de “Night and day”, “Begin the Beguine”, “My heart belongs to daddy”, “I’ve got you under my skin”, “Just one of those things” e “I love Paris”.
Custa um preço muito alto a esses gênios abrir caminho na mata cerrada de gente estéril que considera mau exemplo para seus filhos o bissexualismo, a apologia de bebidas e drogas e o sexo indiscriminado. Enquanto dançam e cantam essas mesmas músicas que se eternizaram e inspiram a nostalgia dos bons tempos.
Cássia Eller também assumiu suas diversas facetas através de títulos de discos e CD’s como “Marginal”, de 1992, e “Veneno Antimonotonia”, de 1997. Mixou sua vida com a de Cazuza em “Malandragem”: quem sabe ainda sou uma garotinha, esperando o ônibus da escola sozinha, calçada com minhas meias três-quartos, rezando baixo pelos cantos por ser uma menina má. Eu só peço a Deus um pouco de malandragem, pois sou criança e não conheço a verdade, eu sou poeta e não aprendi a amar.
E pensar que os julgávamos escolados, com uma vivência ímpar a traduzir os mistérios da atração e repulsa, nos fazendo companhia quando queríamos sonhar. Desciam às profundezas do mar para criar e caíam no fundo do poço. Sem o menor aviso, se atiravam de costas em abismos e retornavam em memórias e delírios que nos davam alento e a ilusão de haver ganho um pouco mais de malandragem.

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