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ARMAÇÃO ILIMITADA (Japão – Semifinais)

A globalização adentrou definitivamente no maior espetáculo da terra em que a Copa das surpresas só existe para quem ainda acha que tem time bobo, se aproxima o dia do julgamento final para quem se julga mais esperto do que os outros. América do Sul e do Norte, África, Ásia e a velha Europa passaram no vestibular, até a hegemonia anglo-saxônica – Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha – se fez presente, muito embora os americanos reclamem de ser anti-higiênico assistir troca de camisas ao final do jogo enquanto tomam o café da manhã.
Mas é através da arbitragem na Copa do Mundo que se entende a importância que a mãe representa na formação de mediadores, verdadeiros diplomatas no exercício da arbitragem, a serviço de uma moral reparadora de injustiças seculares, seja de ordem colonialista, escravagista, hegemônica, genocida, persecutória, atentatória a seu credo, uma salada de frutas ainda presente no inconsciente coletivo, confirmando a tese de que o esporte é a menor distância entre fatias de mundos que não se entendem.
A FIFA se rendeu à bandeira do mercantilismo, está para existir uma nação de capitalistas, selvagemente liberal, e de astigmáticos aficionados do regime de concorrência perfeita e do livre comércio, que tenha conseguido eliminar o mercado negro onde a verdadeira transação mostra a sua cara. Bandeirinhas de Uganda e Trinidad Tobago assessorando o juiz egípcio Gamal Ghandour dão uma boa medida de que quando se quer ascender David a Golias, basta erguer o braço ou apitar, a autoridade passageira pode lhes garantir o futuro.
A Coréia aproveitou a magnífica chance de sediar a Copa, que os africanos aprendam o dever pra casa e se tornem mais profissionais, não é uma honra ir pra casa mais cedo com o seu futebol que um dia irá resgatar a arte, se depurados arranjos e armações ilimitadas. A Coréia tratou de arrumar a casa para alcançar o pódio, ao desqualificar Portugal, Itália e Espanha, numa sucessão de erros de arbitragem que invalida a hipótese de coincidência.
Os árbitros foram encontrando meleca em nariz limpo, perseguindo a Itália contra a Croácia e México, até inventar impedimentos apenas porque a regra é de difícil aplicação, exigindo hoje o suporte de vídeos com alto grau de resolução que acompanhem a velocidade do fanatismo coreano. Ofenderam e violaram a Espanha ao apitarem perigo de gol, uma falta que ninguém explica mas que vale como força de lei. Flagelaram o seu sonho em mudar o tenebroso percurso nas Copas em contraste flagrante com o sucesso sem paralelo de seus clubes. Amargas semifinais aquelas do Maracanã de 1950, quando tomaram um vareio de 7 ao som de “eu fui às touradas de Madri, pararatibum, bum, bum”.
A Ásia não assimilou ainda as bombas atômicas lançadas pelos americanos, ao passo que os japoneses se fingem de morto. Atingiu a todos, embora a família asiática não reze unida como a família Scolari. Era preciso reagir e pôr termo a esse estado crônico, primitivo, repetitivo de novela, de sempre discriminar o oriental. A Coréia saiu na frente se o Japão não se resolve, afinal, a relação entre coreanos e japoneses sempre foi pontuada por ressentimentos, embora de língua e tradições comuns. Em 1910, a Coréia se tornou colônia do Japão que vencera a Rússia tzarista, iniciando uma expansão imperialista que o levaria a ocupar a Manchúria e a Indochina, mantendo cativas 200 mil coreanas e chinesas para servirem de escravas sexuais a militares japoneses.
A Coréia foi a porta-voz de dar um basta à Europa poderosa. Mesmo porque não é de bom tom alfinetar os Estados Unidos, por enquanto. Olhando por esse prisma, a armação foi até justa, diante da moral do Primeiro Mundo que sobretaxa, explora na barganha e tira vantagens que até Deus duvida. E tudo passa em branco nos coquetéis. Afinal de contas, que mal há no bêbado ser o herói da noite? Se todas as nações se constroem no curso de brindes, na certeza do sucesso e no sexo prostituído que só satisfaz aos donos do poder.
É imperioso chacoalhar a balança do poder, nem que seja de brincadeirinha no futebol, revela o inconsciente dos coreanos. A ocasião faz o ladrão, a cometer a pior das desídias, para confrontar a armação o indicado é não se curvar em reverência, manter-se erecto e encarar o ladrão – não tema, ele só atira pelas costas. Não se sustente na defesa como a Itália e Espanha, se fixe na retina que ele hesita, todos nascemos estrábicos. E aí é só meter, meter, meter mais, mais, mais gols, e correr pro abraço.
É na montanha de abraços que se encontra a sutileza na diferença entre picante e apimentado. Ambos proporcionam prazer de todas as formas, só que o apimentado arde nas profundezas da alma, enquanto o picante não se presta a invadir a alma, sequer molestá-la, apenas fazê-lo se sentir diferente do que habitualmente acostumaram-se a vê-lo. O obscuro objeto do desejo da Coréia.

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