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CHICAGO

O homem, quando guiado pela necessidade, pode ir muito mais além do que se espera, ao invés de se deixar ficar ao redor de sua praia onde só encontra facilidades.
Com esse espírito chegaram os primeiros colonos em Chicago para se assentarem num terreno hostil, mas já desonerados das taxas exorbitantes que a monarquia cobrava para o sustento de sua corte, matrimônios principescos arranjados e guerras inúteis. Havia uma nação livre por se construir.
Mas justo em Chicago, cujo termo indígena significa cebola selvagem? No inverno, o lago Michigan congelava, as águas recuavam e o pântano se formava em extenso território plano, com a cebola dando o ar de sua presença com o mau cheiro. A tal ponto que os ferozes índios black hawk nem queriam saber de lá viverem, evitando-o e estranhando a opção dos chicagonianos de se instalarem naquela grande pocilga. Mesmo porque no degelo o volume das águas aumentava e inundava tudo o que Deus dispõe na natureza.
No entanto, havia navegabilidade por ser explorada no rio Mississipi para alcançar o Golfo do México. No rio São Lourenço, que deságua no Atlântico. Nos outros grandes lagos. Por que não atrair o europeu para atravessar os Estados Unidos e facilitar a imigração, o progresso, a circulação de dinheiro? Em 1848, é concluído um canal de cerca de 400 km conectando o lago Michigan com o sistema hidroviário do rio Mississipi, tornando Chicago o principal centro de transportes do país. Utilizou-se a mão-de-obra negra, ainda escrava, para cavá-lo à mão, sem o maquinário moderno que estava por ser inventado. Sem precedentes no mundo, a empreitada atraiu trabalho e investimentos, modificando o status de um importante assentamento a caminho da conquista do Oeste para a Chicago imortalizada por Abraham Lincoln e Al Capone.
Em 1871, sobreveio um incêndio que durou trinta e seis horas e destruiu a cidade inteira, agravado por constantes ventos que espalharam fagulhas ao açoitar a região. As casas eram de madeira, abundante na fronteira com o Canadá. Na reconstrução, se utilizaram do aço que passa a ser o seu esteio, acabando por elevar o nível da cidade, já que a vazão da água se mostrava incontrolável, necessitando da tecnologia holandesa, mestra em diques.
Chicago foi a única cidade que passou incólume pela Grande Depressão de 1929, graças a uma mentalidade de crescer com as suas próprias poupanças; se dinheiro é tudo na vida, não tem cabimento depender de quem quer que seja.
Assim pensando, os milionários Wrigley (chicle de bola), Sears, McCormick (ceifadeira mecânica), Marshall Field (lojas de departamento), dentre outros, deram sustentação à metrópole cuja imagem é o arranha-céu, tornando-a um centro de inovação arquitetônica com a filosofia de que a função precede a forma. Ao que Frank Lloyd Wright, o mais célebre projetista, acrescentou uma dose cavalar de coragem e crença nas suas idéias aos 22 anos. Não por vaidade, mas por repensar o mundo a partir do habitat em que se desenvolve, rejeitando o estilo vitoriano reinante até na mentalidade. A ponto de criar um mobiliário adaptado à concepção de suas casas; sem grife, impensável ainda em 1889.
Um apologista da privacidade, acabou com o entra-e-sai da casa da sogra e fechou as portas para a fofocagem de vizinho, mudando os hábitos de uma família se comportar não só dentro do lar, como também não devassando seu estilo de vida para a vizinhança. Suprimiu a varanda da frente e camuflou a porta de entrada. Por isso mesmo, Lloyd foi visto com desconfiança e odiado por infringir os padrões culturais da Província Terra, tendo sido obrigado a se socorrer em outras plagas como o Japão para adquirir respeito e projeção. Havia um quê de ousado na estética do retilíneo de sua obra, que se amolda às paisagens abertas e planas das pradarias de Chicago, procurando captar a iluminação natural em cantos mortos da casa onde punha janelas.
Frank Lloyd Wright viveu 92 anos para constar de uma galeria de homens que cada vez se torna maior por estar à frente de seu tempo e precisa de anos-luz para ser digerido, classificado e catalogado segundo nossa visão burocrática que enfatiza mais os episódios da vida pessoal do que a obra.

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