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“DOR E GLÓRIA”

Não existe filme de Almodóvar ruim nem mais ou menos, é mais ou menos genial, e assim mesmo fica difícil bater o martelo. Os críticos de cinema optaram por vincular “Dor e glória” a outras obras-primas de Almodóvar, quando não há necessidade nem de classificá-lo como autoficção, se o espectador ou leitor está pouco se importando se o que se desenrola no filme ou no livro diz respeito ao cineasta ou escritor – isso é apenas um detalhe. O início do filme é como se fosse uma aula inaugural de um curso de medicina proferida pelo mestre. A cena antológica, e sensual como nunca vimos antes, é a que reúne um garoto de 9 anos, um adolescente de 17 anos e Penélope Cruz, como mãe do garoto, abrindo um leque para todas as possibilidades de jogos que abarcam puro desejo e sexualidade pulsante, apenas na mente do público, com Almodóvar sempre transgredindo na arte insinuando pedofilia, atração hétero e gay, ao mesmo tempo, os supostos precoces impulsos numa criança, e Penélope tendendo a trair seu marido completamente sem graça. Vão dizer que é um filme com a estética gay por retratar a mente e corpo de Almodóvar, assumindo que é uma autoficção, o que seria uma análise pobre, tacanha e limitada bem ao caráter homofóbico dos tempos de hoje. Impressiona demais o estilo kitsch de Almodóvar nos cenários, especialmente no apartamento de Antonio Banderas, em estupenda atuação contida – melhor ator em Cannes 2019 – que reproduz os ensinamentos de Almodóvar sobre representação ao longo do filme. Se tivesse ouvido o que sua mãe sempre quis lhe dizer, e não pôde, e permitido a ela viver ao seu lado, a mãe de Banderas (ou de Almodóvar?) assegura que teria conseguido mudar seu destino. Vale a pena assistir de novo para compor um novo bordado sobre a dimensão da arte, a extensão da inteligência e a aguçada sensibilidade de Almodóvar. Dizem que não existe ninguém insubstituível, mas isso não é verdade.

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