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ERA ESPÍRITA E NÃO SABIA

O escritor João Guimarães Rosa adiou sua posse na Academia Brasileira de Letras o quanto pôde. Prolongou por quatro anos devido ao medo de se emocionar demais e sofrer um mal súbito durante a cerimônia. Não adiantou. A Morte tinha o compromisso de levá-lo três dias depois da posse realizada em 16 de novembro de 1967. Seria vítima de um enfarte fulminante, aos 59 anos. No ápice de sua existência.
Guimarães Rosa escrevia compulsivamente, tendo revolucionado a literatura brasileira. A extrema facilidade para as línguas estrangeiras o levou à carreira diplomática na Alemanha, França e Colômbia, em sequência ao ofício de médico em inúmeras cidades do interior de Minas Gerais. Fundamentais para a formação do escritor, que explorou o regionalismo em conjugação com invenções linguísticas e neologismos, marca registrada de sua literatura. Ao longo da vida foi dominando os idiomas alemão (e dialetos), francês, inglês, espanhol e italiano; lendo sueco, holandês, latim e grego; e estudando a gramática do húngaro, árabe, sânscrito, lituano, polonês, tupi, hebraico, japonês, checo, finlandês e dinamarquês.
Estudar o espírito, como se organiza e funciona o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda de seu idioma e os valores nacionais infundidos em sua cultura, principalmente se guiado pelo divertimento, gosto e distração.
Era um homem de fé, de raízes católicas, mas que deixou inúmeras pistas a caminho do espiritismo, como a crença na imortalidade da alma, bons conhecimentos sobre a filosofia hindu, o interesse pela parapsicologia, exercitando o controle da mente numa época em que não se falava disso. Costumava dizer que, antes de escrever, era preciso limpar o aparelho até que o santo baixasse, como se fosse um ritual – só a partir daí começava a criar. Quase morreu na Alemanha, quando servia como cônsul-adjunto em Hamburgo durante a Segunda Guerra Mundial, ao acordar de madrugada com uma vontade incontrolável de fumar, vestindo-se para ir à tabacaria. No retorno, encontrou o prédio do consulado devastado pelo ataque aéreo e nenhum ocupante ou vizinho vivo. Dizem que o raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Pois caiu e Guimarães Rosa sobreviveu a outro bombardeio nas mesmas circunstâncias.
Os relatos sobre os últimos dias de Guimarães Rosa sempre deixaram aos amigos a impressão de que ele previa que a emoção da posse na ABL lhe seria fatal. Durante os três dias que a antecederam, permaneceu calado, o que não causou estranheza, visto que ficar quieto era uma das suas características mais marcantes – sempre auscultando sua alma, como um bom médico. Embora tenha confessado medo de desmaiar, perder a voz, chorar e, pior, que o coração parasse durante o discurso de posse em que diria: “as pessoas não morrem, ficam encantadas” e “a gente morre é para provar que viveu”. No grande dia, tremia, hesitou em sair de casa, demorando a vestir o fardão da cerimônia. Ingeriu calmantes. Entrou no carro a muito custo. Pediu para o chofer ir devagar. Já na Academia, combinou com os imortais que, se sinalizasse com a mão direita, deveria ser socorrido imediatamente. Na certeza de que não chegaria vivo até o final do ano de 1967. Não era só medo de morrer. Tinha a certeza da Morte, sobretudo por vir previamente anunciada em seu livro mais célebre – “Grande Sertão: Veredas”.
Em estado de transe, deu à luz obras-primas da literatura universal, nas quais biografia e ficção se fundiram. Obstinado estilista, sempre em busca da frase perfeita e atento ao cotidiano, agregou à sua capacidade as limitações de espaço e de tempo típicas do trabalho jornalístico e que resultaram benéficas para o exercício da sua escrita, materializada num de seus contos mais famosos: “A terceira margem do rio”.
A história de um homem que resolve se isolar do mundo e que, para isso, vai viver numa canoa no meio do rio – que seria, então, a referenciada terceira margem. Um verdadeiro achado. A meio caminho da grande viagem e da passagem para o Plano Espiritual.
Muitos são espíritas e passam pela vida desconhecendo o fato.

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