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O CHEIRO DO RALO

A bunda do ano. De Paula Braun. No filme O Cheiro do Ralo. Uma bunda gigantesca. E na medida, seja sob o avental de garçonete, na calça jeans, no saiote, ou nua.
A bunda concorre na tela com o maior ator brasileiro do momento, Selton Mello, que compra objetos usados de seus clientes e os trata como se fossem uns merdas. Não se apercebendo do porquê de sua obsessão pelo mau cheiro do ralo.
Mas é da bunda de Paula que vem a luz sobre a polêmica que os glúteos levantam, ou seja, com quantos paus se faz uma canoa. Pelo mesmo canal que percorre Amsterdã, penetram desejo, posse, domínio, submissão e realização. Quando a maré baixa, são expelidas as entranhas, as memórias nocivas de um indigesto encontro. Subindo rio acima, a flor do amor, descendo, o fedor.
A bunda de Paula reflete o abismo que divide os casais. Dar o mau passo significa o vínculo que se tornará inesquecível, para não dizer eterno. Mais forte do que o amor, face à volúpia e impulsão exigidas. Não cabe romantismo. Não chega a ser selvagem, como alguns puristas tergiversam, pois é de legítima cepa.
Mas se a maldita da dor interferir no meio do filme e cortar o fogo, restará o problema não resolvido, o medo, o recuo estratégico, a regressão à virgindade. Mesmo que minimize o impasse invocando a luxúria típica dos homens com seu egoísmo orgiástico e o ser antinatural – após consulta a Darwin.
Não é preciso ir tão longe em associar o desprezo à raça humana com o caráter fétido do ralo nem tampouco deixar de usufruir os canais de Veneza, porque apertados, escuros e mal cheirosos. Não existe pecado na bunda de Paula, apenas o mal de consciência.

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