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INVASÃO DOS CELULARES

Ah, esses estranhos seres com seus celulares! Capazes de caminhar nas ruas falando sozinhos, com seus celulares. Andar molhando os pezinhos no remanso das águas do mar, com seus celulares. Dar as costas ao pôr-do-sol, com seus celulares. Nem bem o avião desliga as turbinas, desandam a ligar seus celulares. Desde a Torre de Babel, os donos de celulares pouco têm a dizer, mas estufam o peito, abrem os braços e fazem questão de usá-los em público. Gente importante, séria e trabalhadora – “Sabem com quem estou falando?” – que transforma você em confidente a contragosto.
No setor reservado aos caixas automáticos de um grande banco todos tiveram que interromper suas operações porque um invasor mal-educado não parava de se esgoelar ao celular por questões menores de falta de fundos, transferência para cobrir o vermelho e a falta que faz um depósito-laranja.
Quem assim se esgoela é porque positivamente não acreditava que os resultados da CPI do Judiciário culminassem na prisão de juiz e empresários preocupados com a causa da construção civil. O próprio ACM não imaginou que as investigações levassem à cassação do primeiro senador da República, posta em pratos limpos por essa casa legislativa, sob a sua presidência. Ele mesmo é quem irá bater o martelo e sentenciar a degola de um dos seus pares mais desassombrados e meteóricos, se examinado sob a ótica da Operação Uruguai. O inigualável ACM, testemunha ocular da História que cassou inúmeros outros senadores por ameaçarem a nossa tenra democracia investidos na pele de lobo comunista.
Na pele de cordeiro, mulher deixa o celular ligado em concurso público, apesar dos cartazes espalhados pela escola e do aviso antes de iniciar o exame. Cartão vermelho para ela logo que tocou o celular. Daqui a pouco voltamos ao Velho Oeste, em que os pistoleiros tinham que deixar as armas com o xerife ao entrar na cidade.
Injustiça com a rajada de ventos que sopram o Brasil, que pretende cassar os 460.947 votos do senador Luiz Estevão de Oliveira – 47,7% dos votos válidos. Seu arrojo e ambição o enlouquecem a ponto de “estar pronto para viajar, se o grande negócio é plantar ervilha na lua”. Talvez seja o caso de encaminhá-lo ao médico que afixou no consultório: “em respeito à tranqüilidade de todos, pedimos que desliguem o celular na sala de espera”.
O melhor a se fazer é sair do país, de verde-amarelo, e torcer pelo Guga no Torneio Roland Garros. Quanto mais rezo, mais assombração me aparece. O taxista toma bênção do pai pelo celular, avança o sinal e prossegue falando. No aeroporto, relaxado pela mão suave do engraxate, que faz massagens no meu pé com flanela e escova, ouço despedida da mulher e filhas com saudade e da amante com a promessa de voltar mais cedo. O celular buzina tanto que você não sabe se ouve ou se lê, impedindo-me de degustar as incertezas quanto à escolha da argumentação usada pela defesa dos cinco policiais que sufocaram o seqüestrador do ônibus 174. “Ação movida por emoção em legítima defesa da sociedade”, “crime acidental não intencionado”, “cada um de nós desejou puxar o gatilho de casa, acompanhando o caso pela TV”, pura negligência que torna o homicídio passível de pena cumprida em liberdade.
Confesso que é para perder as esperanças. No berço da cultura, em pleno Torneio Roland Garros, os juízes advertem exaustivamente a platéia para que desligue seus celulares. O sinal estridente irrita tenistas que arestam bolas, atores que perdem a concentração, professores que têm suas aulas interrompidas, e passageiros que absolutamente se interessam pela conversa rastaqüera ao seu redor. 
Nem mesmo no banheiro o maníaco se desconecta do seu celular. Sentado na privada, recebe um telefonema da mulher que há muito tempo corteja, achando ser ela a mulher de sua vida. Justamente no momento em que a prisão de ventre dava sinais que iria explodir.
O celular está para o civilizado assim como o espelhinho está para o índio.

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